Crônicas de uma mãe espírita | A BANHEIRA
- Leiturinha Espírita

- 3 de ago. de 2025
- 3 min de leitura

Era um sábado à tarde, do mês de abril. Chovia. Foi bem ali, sentada em cima da tampa do vaso do banheiro do meu quarto que me dei conta. Enquanto um bebê peladinho e com muitos dentes a menos se divertia dentro de uma banheira cheia de água com sabão, foi que tudo aconteceu. Foi ali, naquele momento que me dei conta de que aquela seria a terceira vez – e, muito provavelmente, a última – que uma banheira infantil estaria em meu banheiro. Enquanto aquele bebê se divertia entre dar tapinhas desajeitados que espalhavam água por todos os cantos do banheiro e morder um hipopótamo verde de plástico, busquei na memória o sorriso banguelo no banho de outras duas crianças: suas irmãs mais velhas. E nada. Não consegui puxar da memória aquele pueril momento com minhas duas outras filhas. Há menos de 8 anos, outra bebê ocupava aquele mesma banheira cinza. Um sorriso banguelo, talvez bem parecido. Mas a imagem não brotava das lembranças.
Eu, justamente eu, que dizia orgulhosamente pra todo mundo:
“As maiores libertações da mãe são quando o filho para de usar fralda e não precisa mais da banheira”,
finalmente senti o peso dessa frase. Desejei voltar no tempo e sentar na tampa do vaso mais vezes. Desejei fotografar as mãozinhas atrapalhadas que jogavam água em todos os cantos possíveis e desejei rever os sorrisos banguelos. Nada. Senti o gosto agridoce da saudade na garganta. A saudade de um momento tão simples, aliás, de muitos momentos, pois foram centenas, talvez milhares de banhos na banheira até que duas perninhas ficassem em pé embaixo do chuveiro. Desejei congelar cada banho na memória e percebi que já era tarde demais. Agora, as mãozinhas que batiam desajeitadas na água manipulam habilmente vidros de shampoo e condicionador e lavam os próprios cabelos. Aquelas minúsculas mãozinhas que molhavam minha roupa por inteiro agora se ensaboam sozinhas e já sabem secar seus dedinhos e suas perninhas.
Um ditado popular diz que só damos valor às coisas quando as perdemos. Como seria possível perder momentos? Perguntei à juíza suprema que mora dentro de mim para que ela emitisse logo o parecer:
“Você perdeu esses momentos com elas e agora sua pena é simplesmente não conseguir se lembrar deles”.
O meu veredito estava dado: eu estava fadada a não conseguir lembrar.
Foi então que me recordei de uma citação de alguém que também buscou um significado, um sentido para os acontecimentos da vida: quem escreveu o livro de Eclesiastes. No capítulo 3, versículo 1 encontrei a seguinte reflexão:
“Há um momento para tudo e um tempo para todo propósito debaixo do céu.”
E finalmente pude entender: não é que eu tenha perdido aqueles momentos. Eu os vivi. Eu preenchi meu coração com outros sorrisos, e, talvez, naqueles dias, eu tivesse pensado que nunca mais seria feliz assim de novo: admirando um sorriso banguelo, sentada na tampa de um vaso em um banheiro apertado. E maravilhoso é o Senhor que me deu a oportunidade de viver por três vezes a alegria perene de quem observa a vida pequenina se divertir em uma banheira.
É curioso como frequentemente registramos os primeiros momentos, mas nunca nos damos conta de quando serão os últimos. Não me lembro do último banho de banheira da minha filha mais velha, nem da minha filha do meio. Mas, agora vou prestar mais atenção. Levi só sai da banheira quando não couber mais nela.

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Um abraço fraterno no seu coração!
⁞ Chris Lacerda






Chris, sua crônica me faz ainda mais perceber que temos que viver o presente, o momento, sem nos "preocuparmos" pelo futuro, apenas buscá-lo no presente da forma mais assertiva que pudermos, mas sem nos culparmos. Beijos.