Crônicas de uma mãe espírita | O CHEIRO DA SAUDADE
- Leiturinha Espírita

- 12 de jan.
- 3 min de leitura

É curioso como a gente não consegue guardar o cheiro das coisas, não é? O primeiro Natal da família reunida está ali registrado na foto do álbum de fotografias. Os primeiros passinhos do bebê estão guardados em um vídeo no celular. Mas o cheiro! Ah, esse não tem como a gente juntar e botar numa caixinha, pra abrir a tampa depois, quando quiser sentir de novo.
O cheiro do cangote do bebê recém-nascido. O cheiro cipreste da madeira que cobria as paredes e o chão da casa da roça dos meus avós paternos. O cheiro enjoativo e doce do perfume daquela amiga de infância que não vejo há décadas. O cheiro de grama cortada no quintal. O cheiro do bolinho de chuva que só a vovó sabia como fazer. O cheiro de criança suada de correr no parque em um dia ensolarado. O cheiro da chuva que molha a terra e o asfalto, nos relembrando das bençãos dos céus.
Certa vez, li que a memória olfativa é uma das mais fortes que temos, superando inclusive a visão e a audição em retenção, pois o cheiro vai direto pra uma área do cérebro que é responsável pelas emoções e formação de memórias. Talvez seja por isso que quando chego na casa de alguém fazendo bolinho de chuva, o olho enche d’água. Nessa hora, eu me teletransporto mentalmente para aquele apartamento simples perto da praia, para aquela cozinha pequena que cheirava a amor transbordando em forma de comida e afeto. É impossível não sentir o abraço da vovó, que já desencarnou há muitos anos, mas que continua viva no meu coração.

E talvez também seja por isso que quando sinto o cheiro do cabelo do meu bebê de um ano, não quero mais parar. Quero me apossar desse cheiro, quero trancá-lo dentro de um baú na minha memória pra conseguir me lembrar no futuro. Lembrar da boquinha pequena que mamava com força o dia todo. Lembrar do colinho que curava todas as dores e do afago que enxugava todas as lágrimas. Lembrar do aconchego na poltrona de amamentação antes de dormir. Lembrar de como ele se enroscava nos meus braços e só dormia ouvindo as batidas do meu coração. Lembrar da pele macia e do sorriso banguelo de quem sabe que é preciso recomeçar a viver. Lembrar do cheiro do começo da vida que nutre, acalma e desperta o melhor que existe em mim.
Os aromas que perfumam a nossa vida estão em todos os lugares. Na comida caseira posta todos dias na mesa. Na flor colorida de matizes infinitos que embeleza e perfuma o jardim. Na pele salgada de criança que brinca o dia inteiro durante as férias. No lençol branquinho pendurado no varal que balança na brisa suave. No bolo de cenoura que cheira a casa toda. No pão quentinho que chega na sacola de papel pro lanche. No pó de café marrom escuro da roça do vovô. No cabelo limpo do neném que ocupa mais espaço no seu coração do que no seu colo. E quando, um dia, sentimos de novo um cheiro parecido, revivemos na memória aquela cena, transportamo-nos para um passado cheio de riqueza de sentimentos e detalhes que afagam a alma. Assim como escrito no livro de Lamentações, versículo 3, capítulo 21:
“Quero trazer à memória o que me pode dar esperança”.
Não dá pra guardar impresso, como um retrato. Não dá pra gravar na memória do telefone. O cheiro da saudade, esse sim, a gente só sente quando o peito revela a emoção e a mente revive a alegria da vida que já foi bem vivida.
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Um abraço fraterno no seu coração!
⁞ Chris Lacerda





Como sempre, tudo que escreve me agrega muito! A minha memória olfativa é muito aguçada e ao ler sua crônica, me reportei a muitas coisas maravilhosas da minha infância! Obrigada!